sexta-feira, 20 de julho de 2012

O teatro e seus populares rivais

"No entanto, sabe-se, o teatro é suplantado por formas de espetáculos mais atraentes e de massa, como o cinema e a televisão. O teatro deve defender-se, mas só poderá defender-se encontrando aquelas formas que provem a sua especificidade e a sua necessidade, descobrindo funções tais em que não será a cópia de nenhum dos seus mais populares rivais. A única arma do teatro é a teatralidade. A ela tendiam, um tempo atrás, as pesquisas dos expoentes da Grande Reforma. Essas pesquisas, desperdiçadas por causa de numerosas circunstâncias desfavoráveis, ainda hoje, em um tempo pouco propício para o teatro, deveriam ser continuadas. Observou-se que, depois de ter eliminado um a um os outros fatores, o único elemento no teatro que não seja nem artes plásticas, nem literatura e nem esteja ao alcance do filme, é o contato humano vivo, a ligação entre o ator e o espectador. Para reforçar essa ligação, trabalhou-se desde os tempos de Reinhardt. E ainda há muito o que fazer" L. Flaszen sobre o Teatro das 13 filas nos materiais do Instituto Internacional do Teatro, ITI. "O teatro laboratório de Jerzy Grotowski 1959-1969" página 49.

A literalidade versus a teatralidade

"4 O teatro burguês é anticonvencional, é antes a busca da literalidade. Todavia isso não quer dizer que o teatro burguês não se sirva das convenções, ao contrário, criou todo um esquema de convenções próprias. Mas o teatro burguês serve-se de convenções como de um mal inevitável e justamente nisso está a sua anticonvencionalidade, a não teatralidade. Alguém quer mostrar em cena, por exemplo, "as ondas agitadas do Ocenao", mas não dispõe das possibilidades de construir uma piscina de dimensões adequadas, substitui o oceano por figurantes, fechados dentro de sacos e que se balançam com um movimento rítmico. Lidamos aqui com um princípio não teatral (anticonvencional), porque a convencionalidade deriva neste caso da falta de meios técnicos para realizar a literalidade. E, ao contrário, se colocamos em cena "as ondas agitadas do Oceano" dessa maneira, porque as pessoas fechadas dentro dos sacos e que se balançam "como o Ocenao" nos interessam teatralmente ("nos divertem") quer dizer que (ao contrário do que ocorre no teatro burguês) raciocinamos em termos teatrais. Página 43 do livro "O teatro laboratório de Jerzy Grotowski 1959-1969", 2ª edição.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

"A união (dialética) de espontaneidade e disciplina"

"Um outro exemplo: "a união (em uma versão diferente: a dialética) de espontaneidade e disciplina". Essa fórmula famosa tem um sentido rigorosamente técnico. O ato do ator compõe-se das reações vivas do organismo, da "corrente dos impulsos visíveis" no corpo. Todavia, para que esse processo orgânico não se desvie no caos, é necessária a estrutura que o canalize, a partitura composta do movimento e do som. Essa presença simultânea de dois elementos opostos favorece a tensão interior que potencializa a expressividade do ator. Espontaneidade, disciplina - nessas palavras podemos chegar a sentir também máximas de vida ou princípios éticos. No fundo ressoa Heráclito: "Aquilo que se opõe converge, e a mais belas das tramas forma-se dos divergentes; e todas as coisas surgem segundo a contenda". Esse aforismo do legendário pensador era pintado na entrada da sala do Teatro Laboratório na época da nossa gênese." Primeiro parágrafo da página 30 do prefácio "De mistério a mistério: Algumas considerações em abertura" de Ludwik Flaszen do livro "O teatro laboratório de Jerzy Grotowski 1959-1969", 2ªdição.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

LINHA IMAGINÁRIA

Na mesma entrevista a Maria Abreu disse não apenas não saber apontar seus melhores poemas, como ter "até um fraco por certos versos pobres de pé quebrado, incuráveis". -E como se sente na passagem dos sessenta anos - ela perguntou. -Não sinto nada. A linha dos sessenta, como a dos cinquenta ou dos quarenta anos, é uma linha imaginária, como a do Equador: o navio não dá o mínimo solavanco quando a gente a atravessa. (Retirado do livro: "Ora bolas- O humor de Mário Quintana").

FÃZINHA

Uma professora primária ligou para Quintana. Tinha uma aluninha que queria muito conhecê-lo. Será que poderia levá-la para vê-lo na redação do Correio? Claro que sim. Apareceram as duas. -Esse é o Mário Quintana - apresentou a professora. Feitos os cumprimentos, a menina ficou quieta, olhando para o poeta, que soltava baforadas do cigarro para o alto, fazia algum comentário bobo, às vezes parecendo que saía do ar. E foram embora. Algumas horas depois, liga a professora, com uma história que Mário gostava de contar, às gargalhadas: -Quer saber o que a menina disse a seu respeito? "Ele é bonito, mas parece meio pateta". (Retirado do livro: "Ora bolas- O humor de Mário Quintana").

GAGÁ

Festas pelos setenta anos. A TV Globo mandou do Rio de Janeiro uma repórter para entrevistá-lo. Ingênua e desinformada, tratou-o como um velho gagá, cheia de diminutivos e perguntas bobas. Mario ficou uma fera. Mais tarde, conversando com a amiga Madalena Wagner, desabafou: -Veio aqui hoje uma moça me entrevistar. Não entendeu que estou meio surdo mas que minha cabeça está ótima. E ela, em plena posse de suas faculdades mentais, nem desconfia que já nasceu morta. (Retirado do livro "Ora Bolas - O humor de Mário Quintana

SHAKESPEARE

A Coletânea era um corredor ocupado por livros, revistas e jornais,em um ponto nobre da Rua da Praia, diante da praça da Alfândega e ao lado do Largo dos Medeiros. Lugar de encontro de intelectuais e leitores que marcou época na Porto Alegre dos anos 60, tinha em Quintana um visitador diário. Arnaldo Campos, o dono, um dos livreiros mais respeitados da cidade, colecionador de edições históricas, estava por perto no dia em que uma jovem senhora ficou radiante ao reconhecer Quintana como o ilustre folheador ao seu lado. Observou-o algum tempo, aproximou-se. Aparentemente sem saber de que forma fazer a melhor abordagem, identificou-se como professora e foi fundo: -Poeta, o que devo ler para entender Shakespeare? Com o dedo indicador preso no meio do livro que estava examinando, Quintana orientou, imperturbável e honestamente: -Shakespeare, minha filha! (Retirado do Livro "Ora bolas - O humor de Mário Quintana")