terça-feira, 5 de abril de 2011

Soma de elementos?


"Aceitando-se que o teatro tome de empréstimo a outras artes os elementos que o compõem, a fim de proceder à síntese, cabe perguntar se ele não se caracteriza pela simples soma das conquistas realizadas fora de seu âmbito. A resposta afirmativa situaria o teatro como arte secundária, dependente das experiências levadas a cabo em outros campos.

Num primeiro exame, parece razoável que a literatura faça as suas pesquisas na poesia ou no romance, comunicando os resultados estéticos ao dramaturgo. O arquiteto e o pintor trabalhariam no seu terreno específico, para oferecer ao cenógrafo as soluções a que chegaram. Arranjo a posteriori das parcelas fornecidas por outras artes, o teatro se consideraria mera vulgarização delas, permanecendo em atraso e nunca almejando uma arrancada vanguardista.

É certo que as artes puras se prestam com maior facilidade à experimentação. Arte coletiva, o teatro tende a evoluir com mais cautela, e não se deve esquecer que fala a numeroso público, evidentemente alheio aos requintes do apreciador individual. As implicações coletivas da arte dramática fazem-na mais tímida que a poesia ou as artes plásticas. Ela não se limita, contudo, a aproveitar as formas que lhe são transmitidas nos vários setores.

Por isso se afirma que o teatro é uma síntese de elementos artísticos e não de atores. O cenário utiliza de arquitetura e da pintura alguns dados, mas não se contém numa ou noutra arte: forja a sua própria especificidade, e dentro dela se movimenta livremente, chegando a soluções inéditas. Nada impede que a cenografia seja mais avançada que as outras artes plásticas.

[...]"

Magaldi, SÁBATO. Iniciação ao teatro. 7ª edição, Editora Ática. São Paulo- SP. Página 12.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

A vida da boa peça.


" A grande vida da boa peça só começa quando baixa o pano. É o momento de fazer nossa meditação sobre o amor e sobre a morte."
Nelson Rodrigues

Nelson Rodrigues. "O reacionário Mémorias e confissões" Seleção de Ruy Castro. Pg 286

O fenômeno teatral


"Se nós, atores, conseguirmos realizar e recriar a cada noite, esse momento mágico teatral, com nossa verdade e nossa vida, nossa honestidade e nossa organicidade, impulsionados por nosso além querer, telúrico e divino, então teremos, ainda, muitas teses, dissertações e livros como este, que termina tentando explicar, conceituar e discutir esse fenômeno, que é, em si, inexplicável, imencurável e, principalmente, belo."

Ferracini, Renato. A arte de não interpretar como poesia corpórea do ator/ Renato Ferracini. Campinas, SP. Editora da Unicamp, 2003. Página 249.

Como atriz, tenho de executar.


"Como os europeus têm códigos muito rígidos de interpretação, a pergunta que mais me faziam em Berlim era como eu conseguia representar sem mostrar que estava representando. E a minha resposta sempre foi a mais honesta: não sei, não entendi disso. É muito difícil dissertar sobre o método de trabalho, já que como atriz não tenho função crítica, tenho de executar. Quando perguntam, você faz a reflexão. Mas quando está em cena, tem de fazer."

Fernanda Montenegro em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo 01/04/98 Caderno 2, D1 na repostagem "Fernanda ensina simplicidade em Central do Brasil".

Retirado de: A arte de não interpretar como poesia corpórea do ator/ Renato Ferracini. Campinas, SP. Editora da Unicamp, 2003. Página 249.

O ato primitivo


"Pensamos, nesse breve estudo, por grandes pensadores, muitas teorias, princípios e conceitos complexos. Mas tudo cai por terra quando um ator está vivo em cena. Quando, de alguma forma, Apolo e Dionísio dão-se as mãos, entrelaçando o ator em seu fazer teatral. Nesse momento, todas as teorias esvaziam-se ou parecem tão ínfimas e pequenas ante aquele ato que nos sentimos envergonhados por engendrá-las, pois no teatro, nesse momento vivo do ator, estamos presenciando o ato primitivo e primeiro da verdadeira criação humana. No teatro, no momento vivo do ator em cena, estamos presenciando, além do produto, o próprio ato da criação do ator, acontecendo ante nossos olhos; e a visão desse ato é tão sublime que nos revoluciona, pois a criação é, em si, revolucionária."

Ferracini, Renato. A arte de não interpretar como poesia corpórea do ator/ Renato Ferracini. Campinas, SP. Editora da Unicamp, 2003. Página 248.

Barba sobre o teatro.


" O teatro não é uma ciência exata, um território onde se podem alcançar certos resultados objetivos, transmiti-los e desenvolvê-los. Os resultados e as soluções são encontrados pelos atores e morrem com eles. Porém, os espectadores percebem como sinais objetivos as ações articuladas do ator, que por outro lado, são o resultado de um trabalho subjetivo. Como pode fazer o ator para ser a matriz dessas ações, e, ao mesmo tempo estruturá-las em sinais objetivos cuja origem se encontra em sua subjetividade? Esta é a verdadeira essência da expressão do ator e de sua metodologia. É impossível descobrir a fórmula, o material, os instrumentos que poderiam dar uma resposta definitiva a essa pergunta (Barba, 1991, p.32).

Ferracini, Renato. A arte de não interpretar como poesia corpórea do ator/ Renato Ferracini. Campinas, SP. Editora da Unicamp, 2003. Página 248.

O ator e sua flor


"Finalmente, o ator terá a possibilidade de doar sua flor ao público. Ele cultivou a semente nos trabalhos pré-espressivos, regando-a com os diversos trabalhos e treinamentos. Viu essa semente transformar-se em botão, na forma de matrizes, nas pontes, tratando esse botão com a codificação, vida e organicidade, presenciando, finalmente, o desabrochar de suas flores. Depois colheu todas elas, pelo menos as mais belas e vistosas naquele momento, arranjou-as em um ramalhete, enlaçando-as com os ligâmens. Utilizando uma ferramenta chamada variação de fisicidade, cortou alguns espinhos de uma, aparou algumas folhas de outras, agrupou duas ou três flores em um só talo e tirou o talo de duas outras, deixando somente a flor. Finalmente, embrulhou em papel de espetáculo, entrou em cena e entregou seu ramalhete a todos os presentes através dos olhos e de vibrações desconhecidas mas perceptíveis. Saiu de cena vazio de suas flores, mas preenchido pela troca com o público, e voltou ao jardim para preparar outro ramalhete para a noite seguinte."

Ferracini, Renato. A arte de não interpretar como poesia corpórea do ator/ Renato Ferracini. Campinas, SP. Editora da Unicamp, 2003. Página 244.